Microfonia: o que é e como resolver

Sabe aquele apito que sai da caixa quando alguém chega perto com o microfone? Ele tem nome: microfonia. E quase sempre dá para evitar e resolver sem gastar nada, só entendendo de onde ela vem.

O que é a microfonia

O microfone capta a sua voz, a caixa amplifica e solta no ambiente. Até aí, tudo certo. A microfonia começa quando o som que sai da caixa chega de novo no microfone. Ele é captado, amplificado outra vez, sai mais forte, volta para o microfone e continua aumentando a cada ciclo. Em uma fração de segundo, a caixa está gritando sozinha.

Diagrama da microfonia: o som vai do microfone para a caixa e volta, e a cada volta fica mais forte até virar microfonia

Tecnicamente, isso é uma realimentação acústica: o som que sai volta para a entrada e se alimenta dele mesmo. E tanto faz se o microfone é com fio ou sem fio. O sem fio só troca o cabo por um sinal de rádio; o som da caixa continua voltando pelo ar do mesmo jeito.

Então evitar a microfonia se resume a duas coisas: deixar menos som da caixa voltar para o microfone e não amplificar o microfone além do limite.

Por que umas frequências disparam e outras não

Pense num balanço de criança. Se você empurra no ritmo certo, cada empurrão soma e o balanço vai cada vez mais alto. Se empurra fora do ritmo, um empurrão atrapalha o outro e ele não sai do lugar.

Com o som é parecido. A voz e a música são feitas de várias frequências, do grave ao agudo. Entre a caixa, o microfone e as paredes da sala, algumas delas voltam “no ritmo certo” e se somam a cada volta, enquanto as outras se atrapalham. São essas que disparam.

Por isso a microfonia muda de cara. Às vezes é um apito fino, às vezes um “uuuum” grave, muitas vezes uma faixa de frequências com harmônicos (frequências múltiplas da principal) que deixam o som ainda mais sujo. Depende de onde ela começou: no alto-falante pequeno, que toca os agudos, ou no grande, dos médios e graves. Às vezes começa em um e passa para o outro.

Como evitar e resolver a microfonia?

Dá para fazer uma coisa de cada vez e ver o que muda, ou fazer tudo de uma vez. Em casa, as primeiras costumam resolver sozinhas.

A caixa não pode mirar no microfone

É a causa mais comum. Se a caixa está virada para o microfone, você está entregando o som de bandeja para ele.

O jeito certo é a caixa ficar na frente de quem canta, um pouco para o lado, virada para quem está ouvindo. Quem canta fica atrás da linha da caixa. Na sala de casa nem sempre sobra espaço, mas só tirar o microfone da mira da caixa já muda muito: com o mesmo volume, você consegue chegar mais perto dela antes da microfonia aparecer.

Esquema visto de cima comparando a posição errada, com o microfone na frente da caixa, e a certa, com a caixa virada para o público

Tem dois descuidos que pegam muita gente. Um é baixar o braço entre uma música e outra e deixar o microfone apontado para a caixa: microfonia na hora. O outro é a caixa colada numa parede ou num canto, que rebate o som de volta para quem canta.

Segure o microfone pelo corpo, não pela grade

A grade é a cabeça de metal do microfone. O microfone comum de karaokê capta bem o que vem da frente e bem menos o que vem de trás e dos lados. É isso que ajuda a evitar a microfonia: a sua boca fica na frente, e a caixa, de preferência, atrás dele.

Quando você fecha a mão em volta da grade, tapa as aberturas que fazem essa seleção, e o microfone passa a captar de todo lado, inclusive o som da caixa. Se a microfonia só aparecia quando alguém pegava o microfone “estilo rapper”, era isso.

Mão segurando o microfone pela grade, do jeito errado, e pelo corpo, do jeito certo

Microfone perto da boca

Quem canta baixinho, com o microfone na altura do peito, ou aquele tio que deixa o microfone descansando no joelho entre uma frase e outra, está mandando pouca voz para os falantes. Aí alguém sobe o volume do microfone para conseguir ouvir. A amplificação aumenta, o alcance da caixa aumenta e o som chega mais fácil no microfone e começa o ciclo do “apito”.

O som se espalha como a luz de uma lanterna: bem pertinho, é forte e concentrado; um pouco mais longe, se espalha e fica fraco. Por isso poucos centímetros a mais entre a boca e o microfone fazem uma diferença enorme na voz que chega nele. E nos microfones mais baratos isso pesa ainda mais, porque eles já captam pouco e qualquer distância faz falta.

Se o seu microfone aguenta, cante com ele encostado: a grade tocando o lábio ou o queixo. Além de mandar mais voz, isso mantém a distância sempre igual enquanto você se mexe, o que ajuda muito quem não tem prática com microfone. Se a voz começar a estourar ou distorcer assim colada, afaste dois ou três dedos. Microfone que estoura quando você canta perto é outro problema, com outras causas, e também falamos sobre ele.

Com a voz entrando forte, dá para abaixar o volume do microfone e ter a mesma voz na caixa. Microfone menos amplificado é microfone mais longe do limite.

Volume do microfone não é volume da música

“Mas o volume está baixo e mesmo assim dá microfonia!” Isso é muito comum. A caixa amplificada costuma ter um botão de volume só para o microfone (MIC VOL ou MIC LEVEL), além do volume da música ou do volume geral (MASTER). A música pode estar baixinha e o microfone no talo. Para a microfonia, o que conta é o quanto o microfone está sendo amplificado.

Um jeito simples de achar o ponto certo:

  1. Coloque o volume do microfone no mínimo.
  2. Com alguém cantando do jeito de sempre, vá subindo devagar.
  3. Quando a microfonia começar a aparecer, volte um pouco. Esse é o seu limite de volume do microfone nesse caso.

Se nesse limite a voz ainda fica baixa, é a posição da caixa, o jeito de segurar e a distância da boca que vão deixar você subir mais.

Caixa fraca para o ambiente

Abaixar o volume do microfone sempre acaba com a microfonia. A questão é quanto som sobra depois disso. Se a caixa é fraca para o tamanho do lugar ou para a quantidade de gente, no ponto em que a microfonia some a voz fica baixa demais, e a vontade de girar o botão até o fim volta a cada música.

É como um carro 1.0 lotado na subida: ele sobe, mas com o pé no fundo o tempo todo. Uma caixa com potência sobrando para o ambiente chega no volume que você quer sem esforço. Então, se você quer o som no volume que gostaria e sem microfonia, aí é preciso investir numa caixa mais potente.

Enquanto a caixa é essa, o jeito é caprichar em tudo o que já vimos e aceitar um volume um pouco menor.

Grave, agudo e eco com moderação

Muitas caixas têm botões de grave (BASS) e agudo (TREBLE), às vezes separados para o microfone. Cada um deles reforça uma faixa de frequências, e reforçar uma faixa facilita a microfonia justamente nela. Agudo no máximo costuma trazer a microfonia fina; grave exagerado, a grossa.

Comece com os dois no meio. Se aparecer microfonia, repare se ela é fina ou grossa e abaixe um pouco o botão correspondente.

O eco (ECHO ou DELAY) não causa a microfonia sozinho. Mas ele repete a voz e soma mais som saindo da caixa, e isso pode ser o empurrãozinho que faltava para passar do limite. Se a microfonia começou depois de mexer no eco, abaixe.

Por que no show não tem microfonia e no seu karaokê tem

Num rodeio grande ou numa igreja com mesa digital, o cantor passa a noite inteira na frente de um sistema muito mais alto que a sua caixa, e ninguém escuta microfonia. Não é mágica. É um monte de coisa trabalhando junto:

  • Sistema com som sobrando. As caixas principais (o PA) são dimensionadas para o lugar e ficam na frente do palco, apontadas para o público e longe dos microfones. Ninguém precisa levar o microfone ao limite para a voz aparecer.
  • Fone no ouvido no lugar da caixa de retorno. O retorno de chão é uma caixa apontada para o cantor, e portanto para o microfone, de propósito. É a maior fonte de microfonia de um palco. Com o retorno no ouvido (o in-ear), esse caminho deixa de existir.
  • Microfones mais seletivos, que captam ainda menos o que vem de trás e dos lados do que o microfone comum.
  • Equalização da sala na passagem de som. Antes do show, o técnico sobe o volume dos microfones até o sistema começar a microfonar, descobre quais frequências dispararam (a mesa digital mostra isso num analisador) e corta cada uma no equalizador, com um corte bem estreito, sem estragar o resto da voz.
  • Equalizador dinâmico e supressor de microfonia. O equalizador dinâmico só corta uma frequência quando ela passa do ponto; no resto do tempo, deixa a voz inteira. O supressor vai além: percebe sozinho a frequência que começou a disparar e corta na hora.
  • Só o microfone de quem está cantando fica aberto. Cada microfone aberto é mais uma porta de entrada para o som da caixa. Em igreja, com vários microfones no altar, é comum usar recursos que fecham automaticamente os microfones que não estão sendo usados.
  • Um técnico de som de olho o tempo todo, com a mão no volume para agir antes de o público perceber.

Na sala de casa você não tem nada disso, e nem precisa. Caixa no lugar certo, microfone bem posicionado e voz perto dele resolvem a maior parte dos casos.

E aí, na sua caixa a microfonia aparece logo que você liga o microfone ou só quando alguém chega perto dela? Conta aqui nos comentários.

1 comentário em “Microfonia: o que é e como resolver”

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